Quarta-feira, Abril 20, 2005

...E VAI EMBORA.



"... O carinho dele partia do meu antebraço para as mãos, como se escorresse do meu coração e não mais o enchesse..."
[Trecho de "Leia o livro, veja o filme", da Tati Bernardi.]



.::.Ele tinha tachinhas no cinto e um ferro fino atravessando a orelha. Ele tinha aquele estilo manjadamente diferente, e isso fazia dele uma pessoa notável. Ele andava quieto pelos cantos, e quando abria a boca só saiam estrondos. Ele era menino. E era de áries...

Eu tinha rímel preto e blush rosa nas maças do rosto. Eu tinha meu estilo preocupadamente despojado, e isso me tornava insuportavelmente superficial. Eu andava falando pelos cotovelos, e quando calava a boca me perguntavam qual era o grande problema. Eu era mulher. E também era de áries...

E eu pensava que as nossas vidas nunca iriam se cruzar. E, pra falar bem a verdade, eu nunca tinha ao menos reparado que ele existia. Eu sempre tão preocupada coma cara de homem, a atitude de homem, a maturidade de homem... sempre preocupada demais em encontrar o meu homem...

E daí surge o menino. Sai do meio da atmosfera encantada do colegial, achando que tudo é festa. E aperta com força, fecha os olhos, ri pra caramba. Me faz desacreditar que, por tanto tempo, esperei pelo príncipe encantado dez anos mais velho.

Ele fala coisas engraçadas e despretenciosas, e eu acho uma graça quando ele me liga pra falar que está com saudade. Ele escreve cartinhas em folhas de fichário, e acha um máximo as minhas unhas vermelhas. Eu dou risada da cara amassada dele, e acho patético o jeito mimado que ele tem. Eu abraço ele toda hora e morro de medo que a leveza da maioridade faça com que
ele voe pra longe de mim.

E aí a maioridade vem. Vem com força e como um forte divisor de águas... águas salgadas no meio do riacho, até então, doce. Vêm as sensações de libertação e, aos poucos, e quase sem querer, ele vai largando pelo caminho os trejeitos infantis que,a mim, tanto encantavam.

Ele quer abraçar o mundo; ele quer correr, correr. Ele quer ir à festa, ele quer ir à todas as festas, ele quer ser a festa. Ele é descuidado e já não parece a mesma pessoa de sempre. Ele sempre fica, apesar de inacreditavelmente sempre estar fugindo.

Eu já não dou a mínima para o mundo; e quero parar, parar. Eu já festei o quanto pude, fui à todas as festas, já fui a festa pra muitos. Eu me tornei cuidadosa e já não pareço a mesma inconsceqüente de antes. Eu sinto a fuga dele, e não sinto a mínima vontade de impedir que ele vá.

E eu não te pego, você não me pega, a gente não se pega de verdade. E eu fico subjetiva, incoerente, entorpecida. E suas mãos me seguram o antebraço, a minha boca gruda no seu pescoço. Você faz que vai embora...mas fica.

E aí eu é que vou embora... contrariada. Vou embora amassada, procurando uma desculpa pra não conseguir me sentir a dona da história. Vou embora batendo minhas grandes asas de quem muito já vôou, resgatando do fundo de mim a maturidade que, de certa forma, eu passei pra você. Vou embora, eu fingindo naturalidade e desprendimento. Vou embora a passos largos, e agora quem corre sou eu. Vou embora e deixo tudo pra trás...

Até mesmo a hipótese de ser deixada pra trás por você.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Bom feriado e juízo!


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Segunda-feira, Abril 04, 2005

QUANDO VOCÊ DESCOBRE QUE NINGUÉM MERECE

Coisas que se vão

Solidão é silêncio
O perdão de quem lamenta
Silencioso tormento
De quem sente saudade e não agüenta

Tristeza com gosto de sal
Lágrimas de sangue no travesseiro
Sorrisos alheios me fazem mal
Marcas de dor pelo corpo inteiro

Vida rastejante e sem sentido
Segredos já agora esquecidos
Pureza por debaixo do vestido
Sonhos que se deram por vencidos

Pessoas que vêm e se vão
Em uma rotina corrida
Deixam prazer e destruição
Uma amizade perdida

Amor que machuca e parte
Sem reparos imediatos
Faz do sofrimento uma arte
E não se responsabiliza por seus atos.

[Rani Ghazzaoui]


.::.Pego o telefone e ligo praquela mesma pessoa, naquela mesma hora. Falamos as mesmas coisas sem sentido, a gente dá as mesmas risadas histéricas de gritinhos seguidos de respiração forçada. No final de semana a gente programa o filme que a gente jah viu com a pipoca que a gente não agüenta mais comer.Pinta cabelo, pinta unha, pinta a cara, pinta a alma .Tanta pintura por falta de um pinto. E eu nem ao menos ligo.

A nossa semana é atarefada. E a gente nunca tem nada pra fazer. A gente corre, corre, corre...mas está sempre no mesmo lugar. E pra mim já não vale mais a pena.

E aqui estou eu escrevendo, de novo, de forma subjetiva. Talvez alguém me entenda; talvez não. Talvez alguém leia até o fim; talvez coce a cabeça na primeira linha, acenda um cigarro e desista. Talvez eu abale todos esses anos por meio das palavras; talvez você continue com sua preguiça de nada fazer e nem ao menos se dê conta desse texto.

A nossa rotina seguiu rumos que eu sabia que eram errados. De tanto fazer coisas juntas, estamos completamente separadas. Era óbvio, eu sabia, eu sempre disse à mim mesma que não daria certo. Mas o diabinho gritou forte no meu ouvido direito e o anjo tosco que dançava do lado esquerdo caiu e quebrou a asa.

E eu nunca me senti tão egocêntrica. Nunca tirei tantas fotos posers pra mostrar o quanto eu sou feliz. Nunca falei tanto de mim pra tanta gente que eu não faço idéia de quem seja. Nunca precedi um texto meu com uma poesia minha. E nunca escrevi um texto com tantos pontos finais.

Eu que sempre fui uma garota de vírgulas, parei neste ponto. Decepcionada com a palavra amizade.

É bonito ser amigo, mas estou ferrugem e feia, e pra mim já não faz diferença.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Algo como "The best deceptions" do Dashboard Confessional. Vale ouvir.


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