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...E VAI EMBORA.
"... O carinho dele partia do meu antebraço para as mãos, como se escorresse do meu coração e não mais o enchesse..."
[Trecho de "Leia o livro, veja o filme", da Tati Bernardi.]
.::.Ele tinha tachinhas no cinto e um ferro fino atravessando a orelha. Ele tinha aquele estilo manjadamente diferente, e isso fazia dele uma pessoa notável. Ele andava quieto pelos cantos, e quando abria a boca só saiam estrondos. Ele era menino. E era de áries...
Eu tinha rímel preto e blush rosa nas maças do rosto. Eu tinha meu estilo preocupadamente despojado, e isso me tornava insuportavelmente superficial. Eu andava falando pelos cotovelos, e quando calava a boca me perguntavam qual era o grande problema. Eu era mulher. E também era de áries...
E eu pensava que as nossas vidas nunca iriam se cruzar. E, pra falar bem a verdade, eu nunca tinha ao menos reparado que ele existia. Eu sempre tão preocupada coma cara de homem, a atitude de homem, a maturidade de homem... sempre preocupada demais em encontrar o meu homem...
E daí surge o menino. Sai do meio da atmosfera encantada do colegial, achando que tudo é festa. E aperta com força, fecha os olhos, ri pra caramba. Me faz desacreditar que, por tanto tempo, esperei pelo príncipe encantado dez anos mais velho.
Ele fala coisas engraçadas e despretenciosas, e eu acho uma graça quando ele me liga pra falar que está com saudade. Ele escreve cartinhas em folhas de fichário, e acha um máximo as minhas unhas vermelhas. Eu dou risada da cara amassada dele, e acho patético o jeito mimado que ele tem. Eu abraço ele toda hora e morro de medo que a leveza da maioridade faça com que
ele voe pra longe de mim.
E aí a maioridade vem. Vem com força e como um forte divisor de águas... águas salgadas no meio do riacho, até então, doce. Vêm as sensações de libertação e, aos poucos, e quase sem querer, ele vai largando pelo caminho os trejeitos infantis que,a mim, tanto encantavam.
Ele quer abraçar o mundo; ele quer correr, correr. Ele quer ir à festa, ele quer ir à todas as festas, ele quer ser a festa. Ele é descuidado e já não parece a mesma pessoa de sempre. Ele sempre fica, apesar de inacreditavelmente sempre estar fugindo.
Eu já não dou a mínima para o mundo; e quero parar, parar. Eu já festei o quanto pude, fui à todas as festas, já fui a festa pra muitos. Eu me tornei cuidadosa e já não pareço a mesma inconsceqüente de antes. Eu sinto a fuga dele, e não sinto a mínima vontade de impedir que ele vá.
E eu não te pego, você não me pega, a gente não se pega de verdade. E eu fico subjetiva, incoerente, entorpecida. E suas mãos me seguram o antebraço, a minha boca gruda no seu pescoço. Você faz que vai embora...mas fica.
E aí eu é que vou embora... contrariada. Vou embora amassada, procurando uma desculpa pra não conseguir me sentir a dona da história. Vou embora batendo minhas grandes asas de quem muito já vôou, resgatando do fundo de mim a maturidade que, de certa forma, eu passei pra você. Vou embora, eu fingindo naturalidade e desprendimento. Vou embora a passos largos, e agora quem corre sou eu. Vou embora e deixo tudo pra trás...
Até mesmo a hipótese de ser deixada pra trás por você.
[Rani Ghazzaoui]
.::.Bom feriado e juízo!
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