Quarta-feira, Novembro 30, 2005

CAGANDO E ANDANDO



"O tempo não se encarrega de matar desejos, apenas de substituir os personagens..."
[Tati Bernardi]


.::. Não é por um amor medíocre, de poucas emoções e sentimentos quase nulos que as pessoas vivem a vida inteira, se instruem, se arrumam, se projetam e perdem grandes quantidades de tempo esperando, ansiando, imaginando. Não foi por uma cama qualquer, em qualquer lugar do mundo com qualquer pessoa que tivesse mais pêlos que eu no rosto que eu sonhei entregar aquele trequinho cheio de veias pulsantes que fica dentro de um monte de carne, em baixo de ossos e gosminhas, mas os românticos cismam chamar de coração.

Você me chamava de coração, e eu achava lindo. Era lindo porque o seu coração era aquele fisiologicamente impossível, aquele que tem dois aquinhos em cima e uma pontinha embaixo, não aquele que eu aprendi certa vez na aula de biologia; aquele gosmento que se mexia involuntariamente dentro de mim. Era bonitinho ser chamada de coração porque pra alguém que sempre idealizou demais todas as verdades nojentas da natureza, o coração vermelhinho igual ao do danoninho era o ápice do romance, era quase compromisso eterno.

Sabe o que é engraçado? Eu nunca na minha vida fui daquele tipo de menininha retardadinha que só quis amorzinho chambinho, de mãozinhas dadas em looongos passeios pela rua ladrilhada com pedrinhas de brilhante. Definitivamente nunca tive vocação para "inha". Só que você chegou todo manso, de uma hora pra outra, e veio instalando dentro da minha boca uma vozinha forçada de criança que eu sempre abominei quando vi sair da boca de qualquer outra pessoa que fizesse parte de qualquer outro casal. Eu fui ficando boba demais pra toda a minha pompa de moderna e o meu disfarce mais perfeito caiu bem na sua frente junto com a minha vontade de não sentir vontade de ser bonitinha às vezes.

Mas é cômico não? Entra ano, sai ano e os finais pra todos e quaisquer começos meus nunca mudam. Nunca.

E aí pra não perder o fio da meada você também foi embora, assim, como todos e quaisquer outros. Como todos os outros você também têm aquela coisa da fisiologia masculina humana pendurada no meio das pernas; essas, que por sua vez fazem parte tanto da fisiologia feminina quanto da masculina. Você, como todos os outros, tinha a vírgula pendurada que impedia que qualquer continuidade sem interrupções acontecesse na frase. Não importa quanto tempo demore, a vírgula, inevitalvemente, uma hora nos leva ao ponto final.

A Marisa Monte disse uma vez: "O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você...", e quem sou eu pra discordar?

Então, discordar eu não discordo, mas o meu coração de chambinho pode pular o quanto ele quiser dentro dessa caixa toráxica em cima do meu diafragma; há uma coisa dentro da minha outra caixa -- a craniana -- que me diz que eu não devo ligar, e pra falar bem a verdade, eu estou cagando e andando pro bate-bate na caixa de baixo. E que me desculpem as pessoas que entendem melhor de biologia do que eu.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Boas férias pra vocês, crianças!
Não façam nada que eu não faria!

E beijos!


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Quinta-feira, Novembro 17, 2005

EU NÃO PRECISO DE PLATÉIA



"Nada é eterno, não quero brincar de Deus.(...)Hoje meu novo amigo foi embora, não pra sempre, mas um segundo pode ser pra sempre se pensarmos grandiosamente, e ele me dá vontade de pensar grandiosamente..."
[Tati Bernadi, de novo.]


.::. Ele pôs as mãos na cabeça e ficou se balançando de um lado para o outro, bateu no volante, deu um soco no retrovisor. Eu fiquei ali olhando pra cena com olhar meio embassado de quem já tinha chorado um litro e meio de lágrimas inconformadas; rezando baixinho dentro da minha cabeça pra ele não estar desejando socar a minha cara no lugar do carro, no meio dos gritos e da fumaça turva que saía de dentro das nossas bocas porque nós não estávamos mais sendo totalmente sinceros.

A gente passou meias horas agredindo tudo o que tinha encantado um ao outro quando tudo era felicidade demais para ser encarado como problema. A gente passou horas inteiras em silêncio, remoendo dentro da cabeça as coisas que tinha dito e todas aquelas outras que tinha vontade, mas não tinha coragem ou certeza. A gente foi se perdendo aos poucos naquele carro quente; cada um com seu rosto voltado pro seu lado mais seguro, curvados na dúvida de até onde o sacrifício valia à pena.

Eu gruni qualquer coisa enquanto outra lágrima involuntária caía dos meus olhos borrados de lápis preto. Eu não sabia ficar quieta e não iria coseguir fazer isso enquanto sentia que estava perdendo você. E aí você olhou de canto de olho e eu consegui ver que não eram só os meus olhos que estavam marejados enquanto a gente estava se afogando devagar, junto com todas as verdades que a gente sabia desde sempre, mas resolveu expelir de uma só vez, todas pra fora, como socos na cara que não se sabe de onde vêm.

Eu continuei gritando o meu tom de voz irritante e ele foi se abaixando sozinho à medida que eu olhava pros seus braços cruzados, suas pernas tremidas e seu olhar de cabeça baixa. Ninguém sabia o que dizer e eu quis dizer qualquer coisa bonita demais que conseguisse fazer com que você ficasse, mesmo que àquela altura já estivéssemos ambos muito feios pra pensar em ficar.

O silêncio voltou um pouco mais seguro e você mordiscou a boca como quem hesita dizer alguma coisa, mas acaba se denunciando. Pôs a mão na orelha e ligou o rádio baixinho pra incomodar o nosso silêncio mórbido... "Pra que falar?/ Se você não quer me ouvir/ Fugir agora não resolve nada/ Mas não vou chorar/ Se você quiser partir/ Às vezes a distância ajuda/ E essa tempestade um dia vai acabar/ Só quero lembrar/ De quando a gente andava nas estrelas/ Das horas lindas que passamos juntos/ A gente só queria amar e amar/ E hoje eu tenho certeza/ A nossa história não termina agora/ Pois essa tempestade um dia vai acabar/ Quando a chuva passar/ Quando o tempo abrir/ Abra a janela e veja: eu sou o sol/ Eu sou céu e mar/ Eu sou seu e fim/ E o meu amor é imensidão".

Segurou minha mão com força, me apertou contra o peito quietinho e me fez acreditar que aquilo não era o fim.

Mas passaram mais algumas horas cheias e você mudou de idéia; e eu que sempre entendi os sinais fiquei estática sofrendo as minhas partes que ficaram vazias sem você a partir daquele momento. Aí eu pedi para -- do mesmo jeito que você me deixou feliz -- me deixasse em casa pra que eu pudesse sofrer sozinha. Afinal de contas, eu não preciso de platéia para ser uma pessoa triste.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Já é um texto auto-explicativo.
E os créditos para a música "Quando a chuva passar" da Ivete Sangalo.
Logo eu volto com a corda toda.
Se cuidem.





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