Quarta-feira, Outubro 18, 2006

CORRER DEVAGAR PARA CORRER SEMPRE



"...Abrace a vida e viva com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante."
[para um texto piegas, uma boa frase de efeito. Do nada piegas, Charlie Chaplin.]


.::. A vida deu uma bagunçada e uma arrumada, quase que instantânea, que foi só pra me dar um sacode e eu enxergar que do jeito que estava não podia continuar. Que era pra eu entender que nem todos os meus por causa iriam ter algum porque, mas que todos os meus poréns não eram e nem nunca tinham sido em vão. Não era em vão pensar demais, mesmo quando só se pensa bobeira. Nenhuma cabeça morreu de pensar, não ia ser a minha.

Engraçado encontrar elementos do passado no presente e sentir que eles simplesmente já não fazem mais parte do cenário. Uma cadeira, um abajur, uma mesa, um ex namorado. Não combina.

Me olho meio mutante no meio dos acontecimentos que não param nunca. Um dia sou o caos que não consegue lidar nem mesmo com a lentidão do que não acontece porque nunca vai acontecer, de qualquer forma. No outro sou ansiedade borbulhando pra fora dos poros, pra fora da boca, pra fora de casa. Ficar em casa começa a irritar e eu quero mais é ver gente, mesmo que há poucos dias atrás eu estivesse sofrendo a síndrome da lagarta no casulo. Metáfora babaca de menina de 15 anos em seu aniversário de debutante, eu sei, mas quem sabe hoje, pelo menos, eu não consiga virar borboleta.

Eu não andava precisando da frescura, mas sim do frescor adolescente.

Acontece que a vida vai rápido por mais que, em alguns dias da minha, eu tenha a necessidade de ir mais devagar. Aí quando me dou conta, já saí correndo meio que sem rumo, porque pra mim nunca foi admissível ficar para trás. Aí uma amiga me diz que, pra eu entender da onde vem o drama todo, eu tenho que me colocar na terceira pessoa e contar pra mim mesma o que a burra da minha amiga superegodescontrolada fez. Amigas e mães muitas vezes têm toda razão mesmo quando não são chamadas.

Então tá bom, e eu conto detalhadamente mesmo que o interlocutor não tenha exatamente meus olhos, tampouco minha idade e, menos ainda, minha formação acadêmica. Estranho sim pagar para receber conselhos, mas eu prefiro acreditar, então, que não passa de um maduro outro ponto de vista. Tem sido bom, faz olhar pra trás, mas andar pra frente.

Bom ver que ninguém passou por mim por acaso e que nenhuma das minhas experiências gritadas religiosamente em sua ordem cronológica por meio do que eu escrevo ficaram mofadas em mim sem ter deixado nada delas em que eu possa me espelhar lá na frente. A real é que desde sempre foi complicado entender o que eu sinto, mas eu sempre tentei desenhar em palavras para, quem sabe alguém mais ou menos desocupado do que eu, pudesse entender por mim. Não deu.

Se todos eles tiveram que chegar e, sem nenhuma exceção, tiveram que partir, onde está escondido o grande problema que não deixa e estada ser maior? Pode ser a incompatibilidade - e eu adoro pôr a culpa nela -, pode ser a maneira como as coisas são demonstradas, ou até mesmo a forma de oferecer estadia, mas pode não ser nada disso porque, se fosse tão óbvio assim, eu já teria descoberto.

Vou assim então, devagar e sempre, mesmo que a parte do devagar pareça piada para uma pessoa como eu, que sempre extravasou tanto.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boa semana!


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Domingo, Outubro 01, 2006

POR ASSIM SER EU, DO MEU.



"Others they seem so very nice nice nice nice nice oh oh. Inside they might feel sad and wrong."
[porque sempre vale à pena ouvir Strokes]


.::. Então eu parei e quis dizer uma coisa bonita na frente do espelho, na frente de mim mesma e daquela pessoa de cabelo comprido que eu não conhecia, que eu olhava fixo dentro dos olhos e tinha certeza absoluta que não fazia idéia de quem era. Eu quis dizer uma coisa bonita pra que todas as coisas ruins que estavam acontecendo comigo - e com ela - naquela hora, fossem embora junto com as lágrimas de raiva e frustração que eu e ela derramávamos na frente do meu espelho enfeitado.

Eu já não era eu mesma e as horas iam passando depressa enquanto o tempo perdido se acumulava dentro de mim sem volta. Mas, aos poucos, fui percebendo que não adianta acumular a dor, não adianta pôr a cabeça pra fora na chuva e, ao invés de lavar a alma, pegar um resfriado e ficar a semana toda de cama. A minha cabeça repetitiva até quis sofrer mais um pouquinho as mudanças, pra ser poética, mas eu decidi que, dessa vez, eu seria sucinta porque, dessa vez, era pra mim, só pra mim, sem segundas e terceiras pessoas espalhadas pelos cômodos da minha vida.

Tinha que ser bonita porque todas as coisas ao meu redor andavam feias demais para me servirem de consolo; eu nunca gostei de imaginar que pra um fracasso meu, haveria de ter um consolo. Mas havia, porque sempre há alguma coisa que se salva quando o mundo resolve ser caos e você não quer bagunça naquela noite. Analisar a vida e os problemas que vêm com ela poderia até ser uma tortura chinesa que eu vivia dizendo não querer me submeter. Mas a verdade é que quem fala muito sobre uma coisa, ainda mais a quatro ventos, não pode estar fazendo outra coisa se não analisar.

Exibicionismo nenhum do mundo, mostra feridas que vão despertar tantos outros sentimentos que não inveja.

A vida bateu na minha cara, muitos dias seguidos, sem poesia nenhuma que era pra me deixar sem vontade alguma de abrir os olhos. Só que os olhos são meus e cabe a mim saber até onde é bom enxergar, mesmo que sejam só coisas ruins que não vão me dar o sorrisinho fake que eu tenho que carregar todas as manhãs, no meio dos diplomatas engomados da avenida paulista. A verdade da história é que, por mais dura que as coisas pareçam ser, sempre vai haver alguma maciez nos subtítulos da vida de alguém que intitula todas as coisas pra não se sentir sozinha quando todos os acompanhantes vão embora para ter uma vida mais cheia de graça além da nossa.

E a solidão tem sim, embutida nela, as coisas ruins que tanto se comenta e não existe como não participar do consenso. Mas esquecem de contar que todos os questionamentos que vêm junto, quebram a idéia de felicidade utópica que, não, não existe e, por isso, machuca muito querer tanto. Não eram as segundas feiras de manhã, as sextas à noite e, tampouco, os domingo à tarde que fariam de mim uma mulher extravasada de ódio e nem menos capaz de amor.

Assim como tudo na vida, amores e amigos vêm e vão e, fico aqui perguntando baixinho, quem sou eu então pra decidir que os meus não deveriam mudar?

A resposta vem bem depois, com aquele filme na TV que eu já vi, mas que trás uma lembrança de cheiro bom. Vem com aquele telefonema demorado com alguém muito longe de mim, mas que um dia vai estar perto e, eu sei que vai, porque o a redor fica bem mais macio quando a gente fala. Vem com o abraço da minha mãe sem eu ter pedido, sempre fazendo tudo que eu sei que preciso, mas não peço. Vem com a amiga de infância que reconhece minha voz mesmo que a gente fique três anos sem se falar e eu ligue num dia qualquer pra dar um oi.

O importante mesmo é que, hora dessas, a resposta vem. E se eu não estiver de olhos bem abertos, frente a frente com a minha própria verdade, no meu espelho empetecado, ela vai passar por mim, de novo e, de novo, eu não vou conseguir enxergar. E agora pensando nas bobagens e nas coisas sérias todas, eu decidi que eu deveria mesmo escancarar as ditas janelas da alma porque, afinal, já não era sem tempo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Uma saudade de vocês, crianças!


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